27 OUT - 8 DEZ'16 | ARQUEOLOGIA DA PINTURA | JOÃO DIAS

Espaço Amoreiras - Centro Empresarial
2ª a 6ª feira 7h - 23h | sábados 9h - 21h | domingos e feriados 9h - 18h
Encerrada nos dias 5 e 6 de novembro e de 1 a 4 de dezembro.

João Dias trabalha uma linguagem pictórica muito própria, perseguindo formas orgânicas simplificadas através de movimentos ortogonais, com cores sólidas. A sua pintura assume a pincelada como ritmo e forma, modeladoras da imagem na tela.

A exposição Arqueologia da Pintura constrói-se em torno da exploração da linguagem de pin­tura e a sua "arqueologização", enquadrado desde a tradicional pintura a óleo sobre tela até à sua materialização/esculturação.

Nas suas obras, João Dias utiliza fragmentos de tinta sob a forma de baixos-relevos e formas escultóricas, que nos podem remeter para formas primitivas ou vestígios civilizacionais, ou pelo contrário, para pixéis orgânicos e peças de encaixe de máquinas complexas de um futuro próximo.

 

7 JUN - 29 SET'16 | Majora - 77 anos a entreter os Portugueses

Espaço Amoreiras - Centro Empresarial
2ª a 6ª feira 7h - 23h | sábados das 9h às 21h | domingos e feriados das 9h às 18h
Encerrada nos fins-de-semana 18 e 19 junho e 24 e 25 de setembro.

A exposição "Majora – 77 anos a entreter os Portugueses" apresenta pela primeira vez parte do espólio do Museu Majora, a par do lançamento da marca, que irá propor o seu novo mood aspiracional, a sua nova assinatura.

A Majora é uma marca portuguesa que nasceu em 1939, pelas mãos de Mário José António de Oliveira, que inicia na cave da sua residência a conceção e fabrico de jogos infantis que durante gerações estiveram presentes no imaginário português.

A marca consolidou o estatuto de divertimento para as crianças com jogos como Pontapé ao Goal, Jogo da Glória, Loto ou O Sabichão que, criado em 1962, foi uma figura de destaque no catálogo da marca. Além dos jogos de tabuleiro, brincadeiras didáticas e desafios de destreza, a Majora teve ainda brinquedos, livros infantis e puzzles. Valorizando a criatividade e qualidade dos brinquedos, a Majora trabalhou diretamente com vários criativos e ilustradores, como Gabriel Ferrão, que desenhou centenas de tabuleiros. As temáticas dos mais de 300 jogos didáticos categorizam-se entre desporto, geografia, história de Portugal e a cultura portuguesa.

A exposição conta com os textos de Catarina Ramalho Luís e estará exposta a partir de 7 de junho e ficará patente até dia 29 de setembro, propondo até lá várias atividades, entre workshops e visitas guiadas.

 

5 - 29 MAI'16 | DESENHO | JORGE LEAL

Espaço Amoreiras - Centro Empresarial
2ª a 6ª feira 7h - 23h | sábados das 9h às 21h | domingos e feriados das 9h às 18h
Encerrada nos dias 7, 8, 14 e 15 de maio.

Parte da minha investigação sobre as imagens, e a sua possibilidade de serem tratadas através do desenho e da pintura, debruça-se sobre o universo vegetal e animal. As plantas, flores e pássaros constituem um tema geral que me permite trabalhar a linha na sua complexidade de configurações. O universo vegetal e animal permite-me fazer a ligação entre as minhas memórias de infância passada na aldeia dos meus avós paternos, o trabalho dos pintores franceses do final do século XIX e a minha fruição quotidiana a partir da minha varanda com vista para o jardim e das plantas que tenho no atelier. Num universo aceleradamente digital e tecnológico, interessa-me manter uma relação com o natural como forma de encontrar uma harmonia primordial como ato de resistência e sobrevivência.

Esta proposta expositiva para o átrio do Espaço Amoreiras é uma invasão do natural, que procura o contraste entre o funcionalismo do edifício e as linhas ondulantes dasplantas e animais. Este conjunto de trabalhos em desenho e pintura organiza-se numa composição dinâmica pelo espaço, convidando o observador a um percurso por entre as obras instaladas.

Jorge Leal

 

10 MAR - 10 ABR'16 | ENTRE A DISTÂNCIA E O PRESENTE | MAÍSA CHAMPALIMAUD

Espaço Amoreiras - Centro Empresarial
2ª a 6ª feira 7h - 23h | Aberto durante o fim de semana de 26 e 27 de março.

Maísa Champalimaud apresenta a exposição intitulada "Entre a distância e o presente", inaugurando um novo corpo de trabalho: desenhos em pastel de óleo de grande formato, revelando imagens paisagísticas em tons monocromáticos. O seu trabalho, fortemente influenciado pelo tema da viagem, explora novos processos criativos e apresenta o uso sistemático de pastel a óleo, para representar ambientes paisagísticos, que captaram, sob um olhar fotográfico, figuras entre vegetações, montanhas e mercados.

“Entre a Distância e o Presente” propõe uma reflexão sobre o sonho, as reminiscências da viagem e a distância temporal, estabelecendo uma ponte entre as memórias da autora e o seu contexto atual.

“Entre a distância e o presente”
À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. 1

Pinto a cor dos sonhos,
Janelas dos meus sonhos.
Sonhos de milhões de mundos.

Multidões em ruas cruzadas.
Línguas, cheiros, becos inacessíveis ao pensamento,
Real ou impossivelmente reais?
Sonhos, Viagens!

À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Pinto a cor dos sonhos,
Janelas dos meus sonhos.
Dias sonhados, noites acordadas.

Partidas e chegadas.
Tu e Eu.
Tão longe, tão perto,
O Presente, o Distante.

Rir dos sentidos que levamos nas mãos,
Conversas que de conversa têm tão pouco,
Sinceros sorrisos escondidos entre mercados… tantos.
Eu, o Sal, Tu o Chá.

Ouvir a chuva abafada na janela,
Simples como um desperdício de tempo.
Ouvir as multidões de buzinas,
E as estrelas que caem do céu - caírem no mar.

Passamos os nossos dias juntos,
Intensos na sequência de tudo…
Selvas de betão, mercados e budistas
Foi quando o verão virou primavera.

Pinto a cor dos meus sonhos,
Janelas dos meus sonhos
Todo o tempo que disse,
Todo o tempo passado.

À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

1 Referência a Fernando Pessoa.

Maísa Champalimaud






O texto de autor intitulado “O Mundo não Chega” é uma reflexão de Maria Joana Vilela, escritora e investigadora em Filosofia do Conhecimento e Epistemologia.

5 NOV - 2 DEZ'15 | TOPOFILIA #4 | FILIPA REIS

Espaço Amoreiras - Centro Empresarial
2ª a 6ª feira 7h - 23h | sábados 9h - 21h | domingos e feriados 9h - 18h

Este projeto vem no seguimento da pesquisa que tenho vindo a desenvolver sobre o conceito de topofilia. Tendo por base uma reflexão sobre este fenómeno, fui ao encontro de pessoas de várias nacionalidades que moram em Lisboa (e arredores) e colecionei imagens que refletem não só o seu conceito de “casa”, mas também a sua ideia de casa nesta região. Pretendo reunir imagens que registem a presença e o ponto de vista de outras culturas nesta cidade, procurando abranger a maior diversidade possível.

A cada pessoa foi pedido que colaborasse com uma imagem que representasse para si a ideia de “casa” (não impondo qualquer restrição geográfica) e que indicasse o lugar em Lisboa que considera como tal - acompanhadas de um texto descritivo. A primeira parte do projeto será reunida numa edição de autor e a segunda na série de fotografias que compõem esta exposição.

Com este projeto, proponho uma reflexão sobre a forma como um indivíduo que mora num lugar, que não será o de sua origem ou do contexto em que cresceu, o habita e como o integra ou não como seu. Interessam-me também, as várias vivências que resultam deste deslocamento: o que leva alguém a considerar uma cidade que se afasta da sua cultura e do local onde cresceu como a sua “casa”; ou, de forma oposta, o porquê de alguém sentir que está permanentemente no espaço errado – que não comunica com a sua identidade e com o contexto do local de onde veio.

"Se um lugar se pode definir como identitário, relacional e histórico, um espaço que não pode definir-se nem como identitário, nem como relacional, nem como histórico definirá um não-lugar. A hipótese aqui defendida e que a sobremodernidade e produtora de não-lugares, quer dizer, de espaços que não são eles próprios lugares antropológicos e que, contrariamente à modernidade baudelairiana, não integram os lugares antigos: estes, repertoriados, classificados e promovidos a “lugares de memória”, ocupam nela uma área circunscrita e específica.(...)" 1

No caso de uma disparidade cultural significativa, poderá Lisboa funcionar como um “não-lugar” para algumas das pessoas que aqui moram, com culturas completamente diferentes, mesmo nos espaços considerados “lugares” segundo a definição de Marc Augé - “identificativo, relacional e histórico”? No sentido em que não existe um reconhecimento e uma identificação desses lugares – muitas vezes efémeros, de passagem; e, por outro lado, porque pode não existir uma real integração dessa pessoa neste lugar, o que faz com que exista a sensação de que está em modo transitório sem se inscrever no espaço em que se encontra.

"Na realidade concreta do mundo de hoje, os lugares e os espaços, os lugares e os não-lugares, emaranham-se, interpenetram-se.
A possibilidade do não-lugar nunca está ausente seja de que lugar for. O regresso ao lugar e o recurso de quem frequenta os não-lugares (e sonha, por exemplo, com uma residência secundária enraizada nas profundidades de um solo natal). Lugares e não-lugares opõem-se (ou chamam-se) como as palavras e as noções que permitem descrevê-los."
2

1 Marc Augé, “Não-Lugares – Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade” Letra Livre, 2012, p. 69

2 Marc Augé, “Não-Lugares – Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade” Letra Livre, 2012, p. 92


O EDGE ARTS convidou a escritora e investigadora Maria Joana Vilela a escrever o texto crítico da exposição TOPOFILIA #4.

24 SET - 1 OUT'15 | DO AVESSO ou OS PAÍSES QUE TRAZEMOS CONNOSCO | CONSTANÇA SARAIVA

Espaço Amoreiras - Centro Empresarial
Para visitar e participar contactar: info@edge-arts.org

Inauguração
1 de outubro | 18h30

Um projeto de Constança Saraiva com o bairro de Campo de Ourique.

Tenho andado a pensar nos países que trazemos connosco. Literalmente. Os nossos casacos, calças e camisas, vêm na sua maioria de muito longe. Tenho-me interessado pelos mapas que esta variedade de países cria. Quais são os mapas do nosso armário e das nossas gavetas. Qual é o mapa desenhado pela indústria têxtil, pela globalização, capitalismo ou pela precariedade laboral. Qual é o mapa do nosso dia de hoje?

Depois de colecionar as etiquetas da minha roupa por algum tempo, fiquei fascinada com a ideia de colecionar, também, etiquetas de outras pessoas. Ao cartografar aquilo que vestimos é possível entender a responsabilidade que carregamos naquilo que consumimos.
Ao contrário de outros mapas, estes são um veículo de interpretação para uma paisagem imaginária. Deixam de ser instrumentos cujo objetivo é a orientação, para serem instrumentos de imaginação. Ao fundir o seu valor estético e político, pretendem cartografar não apenas uma paisagem pessoal ou coletiva, mas também social e política.

Perante o desafio lançado pelo Edge Arts em parceria com a Roulote – Projectos Artísticos, decidi que estes seriam o momento e lugar ideais para aprofundar estas ideias. O Espaço Amoreiras, centro empresarial que acolhe o projeto, encontra-se em Campo de Ourique – um bairro tradicional Lisboeta onde um centro comercial com gigantes cadeias de roupa internacionais contrasta com um vibrante comércio local. Adicionalmente, a Roulote é uma espaço artístico cujas caraterísticas permitem uma aproximação mais íntima ao bairro.

Coleção & Cartografia

Na prática, o projeto consiste em desafiar indivíduos a doarem as etiquetas das suas roupas para a criação dos mapas. As etiquetas são cortadas num espaço próprio para esta ação – uma espécie de provador para os participantes. As etiquetas são então catalogadas, através de instrumentos de recolha, e posteriormente cartografadas.

O projeto desenvolve-se em duas fases distintas: uma residência artística e uma publicação. Os oito dias da residência artística terá lugar entre um atelier aberto criado no Espaço Amoreiras e a Roulote – Projectos Artísticos.

Atelier Aberto

O átrio do Espaço Amoreiras funcionará como atelier da artista, sublinhando o caráter performativo da pesquisa artística. Painéis expositivos irão acumular material recolhido e criado durante a residência – um arquivo relacionado com a investigação e processo do projeto: documentos, desenhos, fotografias, objetos, textos e vídeos. Será assim, para além de um espaço de produção artística, um espaço de comunicação, participação e sensibilização. Desta forma está aberto a qualquer interessado ou curioso. Qualquer pessoa é convidada a entrar no espaço, ler e ver o material exposto.

A Roulote

A Roulote – Projectos Artísticos, neste projeto, é um espaço paralelo de exposição e coleção. Viajará por vários lugares do bairro de Campo de Ourique, ocupando lugares como jardins, escolas e associações, convidando a comunidade à participação.

Publicação

Esta residência artística será matéria para uma publicação posterior, o objeto final do projeto. Esta incluirá uma edição do arquivo construído ao longo da residência artística: os mapas, textos de autor, testemunhos de participantes e imagens.

A alternativa: Workshops & Debates

Para além da cartografia das etiquetas, o projeto pretende ainda oferecer aos participantes a oportunidade de refletir sobre alternativas à situação atual da industria têxtil através de uma programação relacionada com o assunto, como mostras de documentários, debates e workshops.

A entrada e participação são livres.

Acompanhe o nosso percurso:








CONCEÇÃO E ORGANIZAÇÃO EM PARCERIA COM:





Roulote – Projectos Artísticos é uma iniciativa de Pedro e Teresa Pires, que desde 2013 tem como objetivo utilizar o interior duma rulote como galeria de arte. Sendo um espaço artístico em movimento, os artistas são convidados a desenvolver projetos tendo em conta não só o espaço reduzido da Roulote, mas também o contexto, história e caraterísticas da comunidade onde a Roulote é integrada.

roulote.pt

orgjobmanuelmaiapnfazfundleapnbitlcouriqueeaartcarmeur org

O EDGE ARTS convidou a doutoranda e investigadora Luísa Salvador a escrever o texto crítico da residência artística Do Avesso ou
Os Países que trazemos connosco
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9 JUL - 16 AGO'15 | CONCEITO PERCEPTO AFECTO | MARIA COHEN

Espaço Amoreiras - Centro Empresarial
2ª a 6ª feira 7h - 23h | sábados 9h - 21h | domingos e feriados 9h - 18h

Conceito Percepto Afecto : Com base nesta premissa de três elementos a jogarem em tensão o desenho é estruturado. Nesta tripla tensão, como refere Deleuze, na Carta a Réda Bensmaia, sobre Espinosa, em conversações “… e são precisas as três asas pelo menos para se fazer um estilo, um pássaro de fogo.”1 O pássaro de fogo torna-se devir. E, com ele, uma necessidade premente de resposta ao Conceito (novas maneiras de pensar), Percepto (novas maneiras de ver e ouvir, não enquanto percepções, mas enquanto um aglomerado de sensações e relações que sobrevivem à experimentação) e ao Afecto (novas maneiras de experimentar, onde se opera um movimento transformador daquele que por eles passa).

O desenho não se satisfaz apenas a obedecer a esta estrutura mas procura desenhá-la! É neste momento que reconhecemos os corpos, como corpos no limbo à procura de novas vestes, as várias representações das asas, que compõem a fénix, elementos de três figuras entre outros, sem no entanto descurar as frustrações desta procura e daí o aparecimento de outras figuras (as máscaras, narizes, abelhas,…) e a utilização de um outro material, o carvão, para fazer face a esta adversidade, abrindo novos caminhos.

A figura no espaço do desenho assume todo o protagonismo. Esta manifesta-se através de fragmentos das suas características. O todo não interessa!

Do fragmento nascem novas possibilidades, pelo que da repetição das formas, movida por uma necessidade de construção de um mecanismo expressivo (experimentação/erro) surgem novas roupagens que lhes confere um novo sentido.

O desenho alterna-se entre a linha e a mancha, surgindo ocasionais apontamentos de cor, mas nunca para produzir outro resultado que não o de sublimar a figura. A ausência de fundos obedece à intenção de retirar a figura do seu enquadramento narrativo, onde esta se basta a si própria. A utilização de escalas pequenas confere ao desenho um carácter mais intimista, onde a rapidez da sua feitura propõe/sugere uma fluência na sua composição.

Maria Cohen



1Gilles Deleuze, Conversações, Editora 34 Ltda., S. Paulo, Brasil p.205


O EDGE ARTS convidou o escritor e investigador António Quadros Ferro a escrever o texto crítico da exposição Conceito Percepto Afecto.

19 MAR - 25 ABR'15  |  DIAS DE NADA - UNDERRATED  |  TIAGO DA CUNHA FERREIRA

Espaço Amoreiras - Centro Empresarial
2ª a 6ª feira 7h - 23h | sábados 9h - 21h | domingos e feriados 9h - 18h

O início deste corpo de imagens dá-se num período de crise criativa em 2008. Um vazio que ficou após o pleno em fechar um ciclo magnífico de vários anos a fotografar o “Ukama Wangu – Família minha”, um trabalho a preto e branco que retrata uma família moçambicana.

Dei comigo com uma sensação permanentemente estranha e subjetiva, vi que tinha esgotado um assunto e uma linguagem que vinha usando por muitos anos. Tudo se transforma, nada se perde.
Abdiquei então do que já conhecia e o meu incentivo é seguir. Nada em particular. Não havia projeto, não havia nada. Novos assuntos e uma nova linguagem a cores. Sem expetativas ver o que rodeia, o que se retrata sem pretensões. Com isto encontrei a naturalidade e tomei consciência do cosmos, a organização da totalidade, do macro e do micro. A força do universo.

Durante estes anos que passaram desenvolve-se a crise económica mundial. Portugal é feito abaixo de lixo nas agências de rating.
Sente-se e vê-se que também os portugueses estão abaixo do lixo quando fazem um exame de consciência, da conta bancária e do exemplo que vem de cima. Uma não realidade que dita a realidade, de fora para dentro e de Nova Iorque para Portugal.

Antes veio o Bernardo Soares com o “Livro do Desassossego” e o texto 123 do qual cito: “Transeuntes eternos por nós mesmos, não há paisagem senão o que somos. Nada possuímos, porque nem a nós possuímos. Nada temos porque nada somos. Que mãos estenderei para que universo? O universo não é meu: sou eu.”

Tiago da Cunha Ferreira




O EDGE ARTS convidou a curadora independente Inês Valle a escrever o texto crítico da exposição Dias de nada – Underrated.

29 JAN - 25 FEV'15  |  SIMULACRO DO IMAGINÁRIO  |  DIOGO ALMEIDA MARTINS

Espaço Amoreiras - Centro Empresarial
2ª a 6ª feira 7h - 23h | sábados 9h - 21h | domingos e feriados 9h - 18h

Diogo Almeida Martins desenvolve o seu trabalho sob várias premissas, tais como a do duplo, do eu, de simulacro de realidades, do palco, da profundidade. No corpo de trabalho do artista verificamos a utilização de vários media presentes nas artes plásticas, tais como a fotografia, a escultura e a pintura. No entanto transversal a este, está presente uma ausência constante dada através das marcas deixadas pelo passado, ou de elementos que outrora ocuparam o espaço que se deixa mostrar.

A realização das silhuetas humanas que estão presentes as obras O Gabinete e A Sala são obtidas através da junção das duas pessoas (o artista e a outra pessoa), tal como acontece no seu processo fotográfico, onde o artista é dado como tela de recepção à projeção de um outro eu.

Os simulacros propostos pelo artista apresentam narrativas construídas, onde o autor se insere sempre. Nas suas peças a presença autoral existe através da sobreposição de duas realidades, a realidade do artista e uma realidade externa, prevalecendo apenas o que surge desta união. Desta simbiose de formas nascem seres estranhos e diferentes, que são sempre definidos pelas características de ambas realidades.

Na criação da obra final, Diogo Almeida Martins acrescenta à sua imagem uma identidade imaginária, que é no entanto uma proposta subjetiva ao observador. A interpretação das peças não é totalmente directa, uma vez que o ato de ver adiciona e constrói novas leituras.

4 - 18 DEZ'14  |  LINE STORIES - ART SHOW  |  MARIANA DIAS COUTINHO

Rolling Stock London
48 Kingsland Road, London E2 8DA
Entrada livre

Line Stories
No âmbito do NY Portuguese Short Film Festival, promovido pelo Arte Institute.

No âmbito da segunda edição do NY Portuguese Short Film Festival, em Londres, e através de um evento promovido pelo Arte Institute de NYC, o Edge Arts - Arte Contemporânea apresenta um mural da artista portuguesa Mariana Dias Coutinho.

A inauguração terá lugar no dia 4 de dezembro, pelas 19h, com um concerto de Rita Red Shoes, na Rolling Stock London. A mostra prolonga-se até ao dia 18 de dezembro e incluirá também obras de Teresa Rego e Daniela Antonelli.
O festival, cuja primeira exibição decorreu em NYC (Tribeca Cinemas), já passou por vários países e tem como objetivo mostrar o trabalho da nova geração de jovens realizadores portugueses.

Para conhecer o programa detalhado do NY Portuguese Short Film Festival visite o website: nypsff.arteinstitute.org.

25 SET'14 - PERMANENTE  |  ART PARKING  |  VÁRIOS ARTISTAS

Espaço Amoreiras - Centro Empresarial
Parque de Estacionamento (pisos -3 e -4)
2ª a 6ª feira 7h - 23h | sábados 9h - 21h | domingos e feriados 9h - 18h

ARTISTAS
EDIS ONE - GONÇALO MAR - MARIA PASSÔ - PANTÓNIO - PEDRO ZAMITH - SMILE - ZANA MORAES
Convidada: MARIANA DIAS COUTINHO

Alguns dos melhores artistas contemporâneos portugueses aceitaram o desafio de pintar as paredes do parque de estacionamento do Espaço Amoreiras no âmbito do Art | Parking. Esta iniciativa surgiu da vontade do Edge Arts dar a conhecer a arte urbana e em simultâneo promover artistas nacionais, sendo este um dos pilares da sua atividade. As propostas apresentadas foram selecionadas por um júri composto por membros da administração e gestão do Espaço Amoreiras, do The Edge Group, do Edge Arts e pela artista convidada, Mariana Dias Coutinho.
Com este projeto propõe-se requalificar o parque de estacionamento, mantendo as suas caraterísticas essenciais, mas criando um ambiente de diversidade. O tema foi livre, dando assim liberdade criativa total aos artistas envolvidos. O resultado foram as obras que se exibem e que atravessam universos bem distintos, desde as intervenções a graffiti de Gonçalo MAR, SMILE e Edis One, passando pela linguagem singular de Mariana Dias Coutinho, Pantónio e Pedro Zamith e pela revelação do trabalho de artistas emergentes, como Maria Passô e Zana Moraes.
A Underdogs associou-se ao projeto, realizando a curadoria de uma parede, cujo artista é revelado durante a inauguração. O diálogo gerado durante as semanas de intervenção tornou o parque de estacionamento num local de encontro e criação entre os vários artistas e a organização, gerando um ambiente e dias únicos. É esta “nova vida” que se pretende, agora, partilhar com os visitantes do parque de estacionamento do Espaço Amoreiras.

24 JUL - 12 SET’14  |  XXL  |  PETER GILBERT

Espaço Amoreiras - Centro Empresarial
2ª a 6ª feira 7h - 23h | sábados 9h - 21h | domingos e feriados 9h - 18h

Perna de Pau, 2013
Palete de madeira, esferovite e ferro

De onde veio este insólito objeto aparentemente caído do céu como se fosse um enorme meteorito - será o descuido de umas crianças "gigantes" a brincarem nos céus? O icónico gelado Perna de Pau faz-nos lembrar a nossa infância, de piratas e aventuras, aquelas tardes quentes e soalheiras de verão no cruzar do quiosque ou à beira mar, quando avistávamos o cartaz colorido dos gelados ou aparecia o Homem dos Gelados: "Há Fruta ou Chocolate!"
Com as suas míticas listras encarnadas e sabor a chocolate e baunilha, ele ajudava a saciar o calor, deixando um grande sorriso rasgado nas caras das crianças...a menos que houvesse uma distração na euforia do momento e caísse por terra… ou seja no chão!
Este objeto de produção em massa encontra-se agora no Espaço Amoreiras. Esta peça singular, tão familiar na memória coletiva apresenta-se, no entanto, com dimensões e materiais invulgares. Enquanto a “baunilha” é construída de esferovite lembrando as caixas congeladoras dos vendedores, o “chocolate” é de chapa de ferro oxidada numa alusão ao casco de um navio. O "Perna de Pau XXL" pode ser simplesmente visto como uma divertida peça no estilo "Pop Art" dos anos 60. Mas, ao contrário desses ícones anatomicamente "perfeitos", esta peça reciclada de resíduos encontrados no acaso revela sem pudor todas as suas "cicatrizes e rugas".
Afinal, são elas que marcam as histórias das nossas vidas, dos desaires às alegrias.

Peter Gilbert
julho 2014

8 MAI - 27 JUN’14  |  A VÓS, AVÓS, A VOZ.  |  FILIPE CRAVO

“A vós, avós, a voz”
Pintura e Silêncio, salvação e ironia
Frederica Jordão

Pintar depois da ‘morte da pintura’ será um exercício de flagrante ironia. Inevitável que assim seja para quem nasce nos anos 70, como Filipe Cravo. E a ironia tem sido integrada no trabalho deste artista plástico a diversos níveis, desde as primeiras apresentações à Central Saint Martins College, enquanto estudante, e que incluem “FilipElvis” e a sua hilariante reinterpretação-apropriação-roubo da celebridade.

Numa primeira fase [compreendendo os trabalhos de “Amor de Mãe”, 2005], marcada pela influência da Pop Art, a ironia convocada pelo texto – na tela ou na legenda – serviu um exercício de reconhecimento das descontinuidades geradas pela falência das grandes narrativas, conseguido através do humor. Como jogo retórico partilhado, pintor e público são testemunhas do fim do sentido, do estilhaçar das grandes verdades prescritivas, e cúmplices na descoberta das incongruências entre dados visuais e textuais que se repelem e atraem a um mesmo tempo.

Mais tarde, da inflexão pessoal de Filipe Cravo para a investigação do universo da música negra, a ironia terá emergido, no sentido plenamente pós-moderno, mais do que como modalidade de denúncia, como estratégia positiva de reprodução desse recém-descoberto viver multivocal, da apoteose dos estilhaços geradores de novas narrativas e potenciais. Assim na série “Os sonhos são para quem dorme”, de 2011, um trabalho quase arqueológico sobre a história e o destino dos obscur(ecid)os membros da banda de suporte de James Brown. Assim também nos trabalhos agrupados largamente na não-série de tributo “retroRESPECTive”, onde se chega a pressentir a transgressão de trazer homens e mulheres negras para o centro da tradição do barroco flamengo.

Talvez se possa dizer de “A vós, avós, a voz” que constitui uma nova fase pessoal de inquirição do lugar e da pertinência da pintura como suporte de mensagens. Servir-se da pintura – a técnica morta – para reflectir sobre a génese da música e, mais certeiramente, sobre a génese do silenciamento estrutural que tem caracterizado a relação do Ocidente com o continente africano e uma certa ideia de África é um novo exercício de ironia, apurada ao ponto de quase curto-circuitar meio e mensagem num derradeiro passo que não se sabe se é de revolta se de dança.

20 MAR - 30 ABR’14  |  OVER THE VOID  |  MIGUELANGELO VEIGA

Esta exposição do Edge Arts revela um conjunto de peças de Miguelangelo Veiga, artista português formado em Pintura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e que tem desenvolvido investigação também nos campos do vídeo e da instalação.
Em OVER THE VOID, Miguelangelo Veiga transporta o espetador para a experiência de vazio que o absorve antes de começar a desenhar. Um vazio que ganha forma através do Desenho e da Pintura de estruturas que expressam os seus espaços de afeto.
Recorrendo à linguagem arquitetónica desde cedo (o autor abandonou o figurativo nos primórdios da sua formação académica), Veiga admite ter encontrado na Arquitetura “uma forma de representar a condição humana sem recorrer ao figurativismo. O vazio é a ausência de matéria, no fundo é a região onde tudo pode acontecer”1. Esta necessidade de pensar a espacialidade é um traço marcante no trabalho de Miguelangelo e onde reconhecemos – ainda que o artista hesite em admiti-lo – uma ligação à cenografia2, patente na volumetria que as telas e desenhos assumem e na evocação constante de estruturas físicas3.
No que respeita às peças que aqui se apresentam, selecionaram-se obras em que Miguelangelo Veiga tem trabalhado desde 2011, como os desenhos 13,5m2 ou Domino, e mostra-se pela primeira vez a série Crossing Over the Edge, onde Veiga volta às questões de fundo da sua obra, sobrepondo camadas de informação, da qual nos deixa apenas ver o resto.
A complementar a mostra, serão exibidos em sessões próprias os vídeos Intercontinental e Featuring Julio.

1 VEIGA, Miguelangelo: entrevista ao artista a propósito da presente exposição, Lisboa, 3 de Fev. 2014.
2 Miguelangelo Veiga colaborou com o grupo de teatro OLHO entre 1993 e 1998. Pela mesma altura, o artista praticava também o grafiti em Almada.
3 BARATA, Hugo, Através de uma sala – ou a semelhança inquieta: “Algumas linhas acerca de 13,5m2, de Miguelangelo veiga”, Lisboa, Março 2012.

30 JAN - 28 FEV’14  |  PASSAGENS COM COR  |  JOSÉ MOURA-GEORGE

Esta exposição mostra o trabalho de José Moura-George, artista português formado em Arte e Design em Inglaterra. Com uma vasta produção, a obra de Moura-George caracteriza-se pela explosão de cor, tendo sido destacada por José Augusto-França de “exemplar” e “matisseana”:

“(…) Pela segunda vez, falando desta obra, a digo exemplar; e preferi supor que falo não dela, mas nela, para melhor exatidão do que se saiba escrever. Que é maneira, também, de criar uma realidade que ao pintor e ao crítico por necessidade convenha.
O que vê então, o pintor em questão no seu atelier de Colares ou no seu atelier na Florida? Não será o que Matisse via, ao fim da vida, em terras do Sul de França – por paralelo geográfico de naturezas abertas, que ao pintor francês marcaram um fim de descoberta e invenção pictórica? Se alguma classificação fosse necessária à pintura de Moura-George seria de matisseana (outra mais adiante poderá ver-se) no sentido total da palavra, na semântica pictoral que lhe assiste. Nela cabem atitude e cor, amor e felicidade, por satisfação de valores.
A cor é feliz nestes quadros porque é vista e feita em liberdade, no amor físico da sua realização, no tempo dela tanto quanto naquele que depois dela se fixou em imagens animadas – como que flutuantes, na suspensão de um momento. A cor produz espaço, por razões de óptica elementar, produz forma também, mesmo que a supondo rodeada de desenho, por hábito mental. Melhor, porém, se entenderá que ela é forma e espaço, ao mesmo tempo. Ou pode sê-lo, na sua situação mais responsável – a rara. Rara, porque é mais rara do que quer parecer a pintura que já um dia se chamou “pintura-pintura”. Ela tem uma confiança total em si própria, que toma caminhos, referentes ou não, de abstração, que a toda a pintura por definição convém, chama-se como tal ou ao contrário. É este o caso da pintura de José Moura-George” .

1 FRANÇA, José-Augusto, “Em sua família” in MOURA-GEORGE, José – Caminhos Percorridos: Pinturas, Cat. De exposição, Novembro de 2009, Estoril, Vogais & Companhia Edições.

28 NOV - 23 JAN’14  |  EMOSPHERIC LANDSCAPES  |  INÊS DANTAS

A presente exposição do Edge Arts está integrada no programa de "Projetos Associados Close, Closer" da Trienal de Arquitetura de Lisboa. Este programa investiga o ‘território alargado da prática arquitetónica contemporânea’. Neste momento do seu percurso, Inês Dantas, arquiteta e artista convidada para esta mostra individual do Edge Arts, investiga a superfície da cidade e a integração da paisagem natural com a paisagem construída. No seu trabalho, explora o potencial da nova tecnologia de scan tridimensional 1 terrestre na composição de paisagens a partir de um lugar real. Estas imagens, muito mais do que um levantamento, são uma manipulação que gera questões quanto ao diálogo natureza-cultura presente na cidade. Apesar da mediação pela técnica, encontra-se presente uma construção subjetiva de 'lugar' designando-se estas paisagens de ‘emospheric’. ‘Emospheric’ é um neologismo a partir de Emotions and Spheres, conceito utilizado para designar a presença de um sujeito que interpreta emocionalmente as esferas espaciais que atravessa. Este conceito tem vindo a ser desenvolvido nos vários projetos arquitetónicos de *WUDA, através da criação de narrativas que precedem a criação arquitetónica.

Na perspetiva do trabalho em mostra, a técnica de scan tridimensional terrestre abre possibilidades no campo da arquitetura, não apenas enquanto levantamento dos lugares, mas também enquanto potencial especulativo. O lugar aqui representado é a Parkland Walk, em Londres. A Parkland Walk é uma linha ferroviária desativada que ao longo das décadas ganhou o carácter de faixa verde urbana, onde se estabeleceram espontaneamente árvores e arbustos. Aqui está presente uma inter-relação entre elementos construídos e elementos naturais. As presentes imagens correspondem a diferentes perspetivas cuidadosamente escolhidas a partir do lugar virtualmente reconstruido. Estas, mostram a superfície da cidade naquele lugar específico. Cada imagem é composta por uma ‘nuvem de pontos’ (pointcloud): milhões de pontos tridimensionais específicos. As composições incluem uma sobreposição dos vários elementos captados sendo impossíveis de obter a partir de uma observação direta. O processo meticuloso de composição de imagem reconstrói o lugar a partir de perspetivas subjetivamente escolhidas que demonstram a integração do ‘natural’ e do ‘urbano’.

1O scanner tridimensional pode ser entendido como uma câmara a três dimensões. Vários scans em posições diferentes constituem uma maquete virtual do lugar captado.

26 SET - 21 NOV’13  |  NO ©  |  MANUEL FURTADO DOS SANTOS

Existem duas formas de uma produção não ter copyright: ou já expirou a validade dessa mesma propriedade intelectual ou não é considerada uma criação original. É fácil encontrar imagens que nunca foram consideradas originais ou cujos direitos autorais já tenham expirado. É igualmente fácil argumentar que nenhum artista cria sem beber directamente do trabalho de muitos outros, que portanto partilham com ele a autoria e põem em causa a originalidade do que criou. Nessa linha de pensamento é realmente impossível encontrar um trabalho verdadeiramente original. Assim, a pureza daquilo que surge do nada é portanto absurda. O trabalho é sempre uma transformação de um contexto por muito radical que pareça, pois tal como a palavra radical indica tem sempre uma raiz. Quanto mais radical, mais fundo escava as raízes, o passado, para trazer visões que entram em atrito com a vivência do tempo presente.

A propriedade intelectual e a originalidade do artista são objecto da produção artística contemporânea, principalmente pela centralidade da apropriação que a caracteriza. Outra faceta crucial da propriedade nos dias de hoje, relativamente à obra de um artista, é a indicada por Agamben1, o qual nos isola apenas duas alternativas: o mercado ou o museu. Nesse contexto é a propriedade que mais conta. É a validação através da posse que, paradoxalmente, por enquanto, determina os destinos da criação e acima de tudo o seu valor.

Hoje mais do que nunca os limites dos territórios tornam-se difusos, a pintura, a fotografia, a escultura, a colagem, o digital e todos os outros meios de expressão fundem-se tal como os países, os continentes, as culturas... Essa fusão, que também implica uma uniformização, leva-nos a uma aculturação global caracterizada pela perda possivelmente definitiva de diversidade. Talvez estejam a fragilizar-se algumas formas de propriedade do indivíduo em prol do global. Correremos o risco de nos tornarmos uma amalgama desrealizada que alimenta o medo que deriva da tão famosa expressão “too big to fail!” (“demasiado grande para falhar”)? Somos um só povo na “nave espacial Terra” de Buckminster Fuller, mas um povo que não se uniu por um objectivo claro... Somos antes uma espécie de dominó com biliões de pessoas em que a fragilidade de alguém ameaça claramente todos os outros. Exagerando: o nosso comportamento colectivo não anda longe de uma manada de animais em que o susto de um pode levar ao pânico e à morte de muitos.

A estratégia que proponho para repensar a apologia da técnica, da racionalidade fria e da dominadora ciência que parece ter permissão para invadir tudo, é exactamente a análise do passado dessa mesma ciência que hoje nos parece ancestral. Aceitando a procura de um vernacular analógico da ciência do século XX, proponho uma viagem a uma série de invenções obsoletas sobre as quais recaía a propriedade intelectual conferida pelas respectivas patentes. Cada uma dessas patentes contem uma breve descrição textual e um diagrama supostamente anónimo daquela invenção (nunca considerado original e cuja autoria não importava). São estes diagramas/gravuras que digitalizados e sobrepostos nos relembram os mecanismos que afinal encerravam humanidade, emoções, beleza, história, sensibilidade e o fulgor de um tempo em que tudo parecia ser possível. Este tempo recôndito dos nossos avós que contrasta brutalmente com o presente por ele criado.

A metodologia e os meios utilizados nesta exposição fundem por isso pintura, com impressões digitais onde se sobrepõem digitalizações de diagramas de patentes antigas. Esses diagramas nunca estiveram sujeitos a copyright e os direitos conferidos pela própria patente também expiraram há muito. A apropriação de objectos e a sua convivência com pintura, telas, luz e o trabalho digital pretendem levar-nos a um mundo de quimeras em que os meios de expressão se interpenetram. Esse é também um mundo em que os diagramas de um certo tipo de máquinas se sobrepõem visualmente, tentando apontar para uma máquina genérica que cumpre uma determinada função. Um conceito é isso mesmo, uma generalização ou abstracção gerada pela sobreposição de objectos da mesma categoria. Quando sobrepomos todos os diagramas de diferentes patentes sobre máquinas que desempenham a mesma função, temos uma visualização possível do conceito dessa máquina.

Esta exposição pretende então trazer-nos o início de um fenómeno com que convivemos no quotidiano. O início do poder supremo da tecnologia. No início desse processo encontramos a passagem do tempo a outro ritmo, um mundo que gira sobre mecanismos numa escala humana e não com electrões subatómicos à velocidade da luz. Encontramos nesta visão uma tecnologia com patine, uma estrutura formalmente bela que radica na função visível e compreensível da máquina. À medida que o tempo avançou para o presente esta clareza do mecanismo encriptou-se no mundo do invisível e probabilístico.

O que pretendo oferecer é uma visão nostálgica de um certo tipo de tecnologia que veio a definir o digital: o vernáculo analógico da grande explosão científica que definiu por sua vez o Pós-Modernismo em que continuamos a viver.

Se anteriormente procurei desenvolver uma arqueologia visual para investigar a antiguidade digital, agora pretendo fazer uma investigação e uma extrapolação da nossa ancestralidade analógica. É portanto um aprofundar da consciência pré-digital que já tinha começado a desenvolver em exposições anteriores. Se antes me interessava uma antiguidade tão próxima do presente que podia tornar o dia de hoje antigo mesmo antes de chegar o amanhã, agora pretendo encontrar constantes neste processo histórico-mítico do século passado. Somos os primeiros a conhecer aqueles que fizeram a nossa pré-história contemporânea. Assim, podendo comparar o nosso mundo com o dos nossos avós modernos talvez tenhamos alguma hipótese de os entender e questionar as formas actuais.

Outra mudança que pretendo atingir nesta exposição é integrar a liberdade experimental destes tempos modernos, dando primazia à harmonia do visual e do conceptual, sem problemas em sobrepor a uma imagem impressa, tinta e verniz, integrar elementos abstractos no figurativo ou dar uma leitura anónima ao representativo que passa assim a ser abstracto. Neste caso a fusão e a síntese de elementos cuja essência diverge é suficiente para não ter de procurar mais nenhuma fricção. A única preocupação neste processo passa a ser antes o equilíbrio e a harmonia da diferença, já que o atrito é inevitável: penetramos no mito que alimentou o facto. A origem transcendental, neste caso, é apenas analógica e palpável.

Esta investigação levou-me a concluir que a nossa existência digital (tudo o que publicamos na internet) é uma tatuagem definitiva que nos persegue mas também que tudo o que foi feito nesse mundo de heróis e semideuses modernos transcende essa permanência chegando provavelmente a roçar o eterno. Tanto hoje como naquela altura, tudo o que fazemos passa a ser definitivamente parte do que somos e só desaparecerá quando desaparecerem as últimas memórias do que fomos. Neste mundo analógico a replicação era mais lenta mas as consequências eram idênticas: o eterno retorno de toda e qualquer acção. Repetindo-se mecanicamente para toda a eternidade a uma velocidade crescente. Tanto por contraste como por semelhança a nossa curta memória contemporânea diminui enquanto crescem os registos de tudo o que fazemos... Registos sem fim numa outra dimensão... e isto só pode ser identificado através dos contrastes entre a ancestralidade moderna e a contemporaneidade vertiginosa actual.

Fazem parte desta exposição duas instalações (uma na casa museu Medeiros e Almeida e outra no átrio do espaço Amoreiras) e trabalhos, que incluem pintura, impressão digital, mixed media e assemblagem.

Manuel Furtado dos Santos



1 16/08/2012 – www.ragusanews.com/articolo/28021/giorgio-agamben-intervista-a-peppe-sava-amo-scicli-e-guccione
Traduzido em Português do Brasil: www.ihu.unisinos.br/noticias/512966-giorgio-agamben

30 MAI - 05 JUL’13  |  DARKSTAR PROJECT  |  MARTIN BRICELJ BARAGA & ANDRÉ GONÇALVES

DARKSTAR, atualmente na sua terceira forma, é a nova instalação para espaço público dos artistas Martin Bricelj Baraga & André Gonçalves. DARKSTAR é um monumento semi-utópico para o habitante urbano.

Uma ode à matéria negra, ao vazio, ao espaço intersticial, à velocidade, ao tempo e à sua passagem. Esta proposta para a Edge Arts faz uso da especificidade local do Edifício do Espaço Amoreiras e das suas áreas comuns para desenvolver uma relação física entre si mesma e o espaço que a acolhe. Absorvendo o espectro eletromagnético e a atividade física do espaço, altera o seu comportamento consoante a informação recolhida e, tal como um espelho, reflete-a na sua superfície.

2 ABR - 17 MAI’13  |  MEMÓRIA CARTOGRAFADA  |  MARIA SASSETTI + XANA SOUSA

Conjugando o trabalho artístico de Maria Sassetti e Xana Sousa, que objetivamente partilham uma vincada vontade de catalogar, reter e reinterpretar objetos e registos históricos, propomos a realização de um projeto expositivo intitulado Memória Cartografada, a realizar entre 2 de Abril e 17 de Maio de 2013.

A exposição tem como intuito criar uma viagem pelos arquivos das memórias de infância das duas autoras, com forte incidência em elementos da História Natural e interpretativos tanto da paisagem terrestre como da paisagem celeste. As obras, de autoria conjunta ou individual, serão sempre acompanhadas de elementos documentais e livros de artista e haverá um jogo claro entre figuração, abstração e elementos que se multiplicam: desde desenhos que remetem para as pranchas de ilustração científica, até imagens de cartografia urbana e de jardins que aparecem subtilmente à luz de negatoscópios.

16 JAN - 23 MAR'13  |  UM, NENHUM E CEM MIL  |  JOANA RICOU

Exposição “Um, Nenhum e Cem Mil” no Edge Arts
Mostra assinala estreia individual de Joana Ricou em Portugal

“Um, Nenhum e Cem Mil” dá nome à nova exposição do Edge Arts, projeto cultural do The Edge Group, holding de José Luís Pinto Basto e Miguel Pais do Amaral. A exposição, que mostra o trabalho de Joana Ricou na sua primeira exibição individual em Portugal, inaugura no próximo dia 15, pelas 18h30 e estará patente de 16 de janeiro a 23 de março de 2013 na galeria do Edge Arts, no Espaço Amoreiras, em Lisboa.

Joana Ricou é uma artista radicada nos Estados Unidos, a viver atualmente no bairro de Bushwick (Brooklyn, New York City). Em “Um, Nenhum e Cem Mil” explora a tensão entre a necessidade de continuidade e o estado natural de multiplicidade do corpo e da mente, entre mudança e constância, identidade e efemeridade, utilizando a biologia como ponto de partida para o estudo das fronteiras e da fragmentação do corpo humano.

Tendo estes eixos temáticos como ponto de partida, Joana Ricou apresenta nesta mostra a série de pinturas figurativas Multitudes, trabalhos abstratos da série Henrietta Lacks ou células imortais HeLa e as instalações 62 Kilos e Magic Mirror, desenvolvidas como peças site specific para o Edge Arts. A exposição conta também com um vídeo-performance de Beatriz de Albuquerque, artista portuguesa a residir em NYC, o vídeo-documentário The Orpheus Variations, criado pelo The Desconstructive Theatre Project de NYC, sob a direção de Adam J. Thompson e Upside Duck, de Glenn Wonsettler. Sobre o tema da memória, destaca-se ainda a presença do filme de João Chaves, In-perfect Memory (giving birth to a world), 2010.

Joana Ricou estudou Arte e Biologia na Carnegie Mellon University de Pittsburgh (2004) e completou o mestrado em Arte Multimédia na Duquesne University (2009). Expõe regularmente nos Estados Unidos, em espaços de arte e ciência, destacando-se o Andy Warhol Museum (2007), o Carnegie Science Center (2010) e o Children’s Museum of Pittsburgh (2010). Em 2011 integrou uma mostra em Portugal, no Pavilhão de Ciência Viva. Em 2012 o Leonard Journal of Art and Science (MIT Press) publicou um artigo sobre o seu trabalho em museus e espaços de ciência. Algumas das suas peças inspiraram capas de jornais, como é o caso de Outro eu, capa do jornal Nature (Junho 2012) ou Hipocampo de rato, capa do Journal of Neuroscience (2005). É representada pela Galeria Guichard (Chicago).

6 DEZ'12 - 7 JAN'13  |  SABIAS QUE AS PAREDES TÊM OUVIDOS?  |  MANUELA PIMENTEL

Exposição Edge Arts revela que as paredes têm ouvidos
A revolta dos azulejos de Manuela Pimentel em Lisboa

“Sabias que as paredes têm ouvidos?” dá o mote à nova exposição do Edge Arts, projeto cultural do The Edge Group, de José Luís Pinto Basto e Miguel Pais do Amaral. A exposição, patente de 6 de Dezembro a 7 de Janeiro na galeria do Edge Arts, no Espaço Amoreiras, em Lisboa, mostra o trabalho de Manuela Pimentel, artista que desenvolve o seu trabalho a partir da recolha de cartazes colados sobre azulejos de fachadas de prédios, depois transformados e reciclados na forma de azulejo, dando voz à ‘revolta dos azulejos’, assim batizada pela própria.

Esta mostra revela um conjunto de trabalhos que dão a conhecer mensagens que cidadãos anónimos espalham pelas cidades e que levaram a artista a concluir que são desabafos e que são o ponto de partida para a sua obra. São estas mensagens que justificam o título escolhido desta exposição individual de Manuela Pimentel.

Felisa Perez, coordenadora cultural do Edge Arts, refere que “além de ser uma artista emergente e com um trabalho fascinante, a Manuela tem alguns aspetos em comum com os valores do The Edge Group, como a sustentabilidade e criatividade, utilizando os cartazes e as próprias mensagens de rua para contar as suas histórias. Podemos dizer que há aqui uma ‘reciclagem’ ou mesmo a recuperação de mensagens. O seu a acaba também por assumir uma dimensão muito poética, pela atenção que tem a estes desabafos anónimos”.

Manuela Pimentel nasceu no Porto em 1979. Vive e trabalha entre o Porto e Roma. É licenciada em Artes Plásticas, com especialização em Litografia, Serigrafia e Arte Multimédia, na ESAP (02/03) e tem um bacharel em Desenho, pela Escola Superior Artística do Porto (99/02). Em 2007 foi distinguida com o 1º Prémio de Pintura Serv´artes - “Corpo em Expressão” e em 2004 com o Prémio ESAP, do Curso Superior de Artes Plásticas. O seu trabalho está representado em distintas coleções públicas e privadas.

Em 2012 integrou as comemorações de Guimarães Capital Europeia da Cultura com a escultura "P.S. Amo-te" - um avião em acrílico e resina sobre cartazes de rua - técnica que a artista explora em diversos formatos. Em Março de 2013, Manuela Pimentel apresentará uma exposição individual na Galeria St. António, em Roma. No seu singular percurso, a artista tem ainda desenvolvido trabalhos em cenografia para teatro e cinema.

27 SET - 29 NOV'12  |  INTROSPETIVA  |  NUNO VASA

O Edge Arts reúne pela primeira vez num mesmo espaço de exposição um conjunto de obras produzidas por Nuno Vasa entre 2003 e 2012. Mais do que proporcionar uma abordagem retrospetiva ao trabalho desenvolvido durante a última década, esta seleção propõe ao visitante uma aproximação a um percurso que se tem vindo a caracterizar pela recorrência temática das questões que atravessam a obra do artista, mas também pela expressão multiforme que, de certo modo, dificulta uma definição unificadora daquilo que é o trabalho de Vasa.

Escultura, performance, pintura, vídeo e design diluem-se num percurso artístico que, mais do que proporcionar um dar a ver, procura efetivar-se como um dar que pensar, a si mesmo e ao outro. Os distintos núcleos de exposição, que desde logo poderíamos distinguir nesta curadoria de Felisa Perez e Nuno Vasa para a inauguração do espaço Edge Arts, confluem, assumidamente, num só tempo/espaço – o do observador. Este, por sua vez, é convocado a habitar o lugar/fronteira onde a obra de Vasa parece fazer questão de permanecer – a terra de ninguém, indefinível, que separa aquilo que é vida daquilo que é arte. O trabalho de Nuno Vasa tem essa capacidade de desdobrar um real, imediatamente percetível, numa multiplicidade de alternativas a esse mesmo real; jogo em que o visitante se destaca como matéria indispensável não só à atualização e resgate de uma potencial significação, mas como à própria ativação “mecânica” de algumas peças.

Exemplo claro desse compromisso que parece estabelecer-se entre os projetos de Nuno Vasa e aquele que neles participa, algo que podemos classificar como um claro e transversal apelo à ação performativa do espectador, é a peça “Cinema” (2004 / Coleção António Gomes de Pinho), em que a interação do visitante sobre a obra permite revelar o mecanismo que dá origem a esse engano da retina que anima a nossa ilusão que é a sétima arte. A mesma lógica de convocação do observador manifesta-se de forma assumida em “Autorretrato” (2005), peça que joga com a ideia de uma possibilidade de significação infinitamente plural (virtualmente o potencial significado daquilo que a autorrepresentação significa para cada um de todos nós), mas que apenas permite que a atualização do seu sentido se realize na presença física do observador, impondo-o, assim, como material plástico – o si mesmo como condição sine qua non da sua própria e individualizada perceção da matéria artística.

O que de um modo menos óbvio se pode verificar noutros trabalhos como "O Peso Afeta a Linha Reta" (2005), "If I Knew You Were Coming I’d Have Painted Myself" (2005 / Coleção Comunidad de Madrid) ou "Loading Images" (2006) é esse jogo que o artista desenvolve com o corpo do espectador. Da frieza ou minimalismo que aparentemente seriam suficientes para caracterizar a abordagem estética de Vasa, a sua obra impõe ao espectador uma relação de envolvimento; uma ideia de compromisso que apenas resulta após mergulharmos nesse espaço vazio que, num primeiro contacto, nos revela a superfície da sua expressão. Interação que nos desperta uma consciência de jogabilidade entre espetador, arte e artista; relação essa que se pode confirmar em peças como “Kiss Me With Red Lips And I’ll Never Be The Same” (2006) ou com a série “Game Over” (em desenvolvimento).

“Jantar Possível II” (2003), “Casa de Contar Segredos” (2004) e “Solitária” (2004) são esculturas que procuram transmitir o equilíbrio que se estabelece entre o homem, o outro e os regimes da sua experiência comum. São peças que hoje ganham uma outra atualidade e que acabam por anunciar o fator funcionalidade (ou o lado não funcional) dos dispositivos desenvolvidos por Nuno Vasa como mais uma dimensão que se deve acrescentar à «direção dominante» (João Lima Pinharanda) que caracteriza a sua obra e que, inclusivamente, este ano lhe valeu um Prémio POPs – Projetos Originais Portugueses, promovido pela Fundação de Serralves (com as peças “Clip Books” e “Estendal”).

“Oficina” (2012), desenvolvida como site specific para o espaço Edge Arts, é a peça que retira o visitante desse tempo/espaço do si mesmo, para o colocar em relação direta com o tempo/espaço de um outro. A instalação funciona como uma encenação de intimidade. É uma recriação do espaço privado de Nuno Vasa, onde, através de vários indícios, um conjunto de pistas e fragmentos biográficos, presente, passado e futuro se fundem num mesmo tempo – o contexto expositivo – corporalizando a tensão entre aquilo que é o espaço público e o espaço privado de cada um, reforçando essa ideia que a arte não mora em pedestais nem se encontra assim tão distante da vida.

O trabalho de Nuno Vasa vai-se afastando dos convencionados ismos, sobrevivendo e integrando-se numa dimensão muito própria que está plasmada neste conjunto de obras que procuram, essencialmente, produzir uma ação dialógica, realizando uma clara mediação entre a realidade da experiência do humano e o significado daquilo que, em termos formais e coletivos, é aceite, assumido e vivido como produto artístico. Esse é o grande desafio deste artista que encontra no jogo das possibilidades um caminho para a sua expressão que mais não é do que caminhar na direção constante de um encontro com o outro.

Texto | Mário Verino Rosado
Curadoria | Felisa Perez e Nuno Vasa
Conceção e organização | Edge Arts - The Edge Group